Psicóloga e ativista guarani chamou a atenção para a necessidade de questionar as monoculturas do pensamento; programação do Festival segue florescendo até o dia 12 de setembro
A fala gentil e suave de Geni Nuñez soou estrondosa entre as presenças atentas da sala Orlando Di Genova, no Centro Cultural Francisco Moriconi, em Suzano, para a abertura da segunda edição do Festival Sementeia nessa segunda-feira (1/9). Ao compartilhar seus escritos, resultados de pesquisa e experiências obtidas a partir da ideia de descolonização dos afetos, tema que atravessa sua vida e obra, a psicóloga e ativista indígena guarani deu o tom do que esperar para os próximos dias de evento, que segue até o dia 12 de setembro na cidade: um espaço no qual o protagonismo feminino artístico e criativo é convidado e estimulado a florescer.
Doutora pelo Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGICH/UFSC), Geni propõe desafiar os dogmas da academia com a sabedoria ancestral que carrega. Sua escrita, assim como fala, vem acompanhada de termos, expressões, orações e histórias que nos permitem questionar a versão única que nos foi contada e imposta, desde a colonização, sobre nossos corpos, identidades e existências no mundo. “Se a colonização não acabou, nós também continuamos aqui”, afirmou logo no início da fala, explicando que reflorestar o imaginário é justamente desconfiar de tudo aquilo que se apresenta para nós como uno, e incentivando “o reconhecimento de outras existências que tornam a nossa vida possível no mundo”.
O tema proposto por Geni para a conversa, mediada pela psicóloga suzanense Endil Oliveira, é interseccional, e apresenta o recorte de gênero e as dualidades impostas pela cisheteronormatividade como uma instrumentalização perigosa para a vida das mulheres e população LGBTQIAP+. “É com assombro que percebo que violências são praticadas em nome do que se diz ser amor; então mais do que expor essas violências, é preciso questionar que tipo de amor amor é esse, que ética é essa”, pontua. “Um sistema que não aceita o ‘também’, que pela norma estabelece desvios e impõe hierarquias entre pessoas é um sistema parasitário”, ela afirma. “Nem tudo aquilo que nos foi negado é bom, então antes de pedir perdão, a gente precisa ver se concorda com o que é imposto como pecado”.
A atmosfera foi de celebração e resistência. Na abertura, a acessibilidade em Libras realizada pela equipe AcessaHabilidade, garantiu inclusão e também simbolizou o cuidado do Festival em fazer da arte um espaço de acolhimento real. Em plena segunda-feira, o público preencheu a sala, num gesto de mobilização coletiva que reforçou a força e o desejo por iniciativas conduzidas por e para mulheres. Criado para celebrar a potência da arte feminina em Suzano, o Festival Sementeia contou ainda na abertura de sua segunda edição com a apresentação da artista e poeta Bel Jaccoub. Com o título “MÃEnifesto – Tentáculo I”, Bel deu boas-vindas, acolheu e integrou quem estava com um abraço sensível em sua performance.
Além da palestra e da performance, a noite também trouxe uma feira de produtos feitos por mulheres da região, que transformou o hall do Centro Cultural em um verdadeiro espaço de encontro e trocas afetivas. Esse momento de convivência reforçou o espírito de fortalecimento mútuo que orienta o Festival, funcionando como um ritual de partilha e recarga de energias para os dias que virão.
Celebração, política e afeto
Com produção e curadoria toda assinada por mulheres e uma programação voltada a toda comunidade, a idealizadora do projeto, Tuane Vieira, ressaltou a importância dessa iniciativa ser amparada justamente por uma política pública de acesso e fomento à cultura, que é a Aldir Blanc, e chamou o público para se atentar a essas questões. “O Festival Sementeia veio para plantar essa ideia, de que há um caminho diferente para se fazer arte e cultura, em que inclusão, diversidade e oportunidade são garantias de uma existência pautada pela ação ética e política em sociedade”, afirmou.
A programação, que conta com multi artistas locais e regionais de diversos segmentos, reúne mais de 10 atividades, oferecendo um equilíbrio entre formações, debates e apresentações artísticas. Além de acontecer em vários espaços culturais da cidade, como o CEU Gardênia, o Centro Cultural Colorado e o Casarão das Artes, há também programação online, ampliando o alcance do debate, de maneira descentralizada e tudo com acesso gratuito. É o caso do bate-papo sobre produção de conteúdo por mulheres reais, com Daylanne Cerqueira (@daylanecerqueira), influencer e bailarina, direto de Salvador/BA. A atividade acontece no perfil Festival no Instagram, @festival_sementeia, com mediação da atriz, militante negra e influenciadora suzanense, Anna Flávia Macedo (@annaflavia.macedo).
Outros destaques são o espetáculo de dança “Tropicana(s)”, com a Cia. Deux (04/09); a oficina “Laboratório de Escuta de Imagens”, com a arte-educadora Elidayana Alexandrino (04/09); o bate-papo “O papel dos contos de fadas na formação e autonomia feminina”, com o Coletivo Atreva-se, a psicóloga Victoria Rodrigues e mediação da professora Flávia Gonçalves (05/09); e o show musical da cantora Satiê (05/09). A programação segue na próxima semana com a oficina “EU, SEMENTE”, da arte-educadora Jana Santos (08/09); o espetáculo teatral “Guerreirinha, Guerreirinha”, com o coletivo Elementar, que tem abertura da performance “Palavras”, de Suéllen Santos (11/09); além do show de encerramento “Cinzas”, com a cantora Zanah, que conta ainda com discotecagem especial da DJ Flávia Durante celebrando artistas latinas (12/09).



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