Nesta terça-feira, 31 de março, completam-se 62 anos da deposição do presidente João Goulart pelos militares, episódio que deu início ao regime instaurado em 1964 e que permaneceu no poder por 21 anos. Ligado à tradição política da Era Vargas, da qual foi seguidor e ministro, Jango — como era chamado pelo povo — foi vice-presidente de Juscelino Kubitschek e de Jânio Quadros, sendo identificado com pautas nacionalistas e reformistas.
Em 13 de março de 1964, no Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, Goulart anunciou medidas como a nacionalização de companhias petrolíferas estrangeiras e a desapropriação de áreas às margens de rodovias e ferrovias federais para fins de reforma agrária. Antes disso, em agosto de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, os militares dificultaram sua posse. Goulart, que estava em visita oficial à China, só retornou a Brasília em 7 de setembro, após um acordo político que implantou o parlamentarismo e limitou os poderes presidenciais. Em janeiro de 1963, porém, um plebiscito devolveu ao presidente a autoridade plena para governar.
Nos meses seguintes, o país viveu um período de intensa instabilidade política e social, que culminou nos acontecimentos de 31 de março de 1964. Tropas de Minas Gerais, sob o comando do general Olímpio Mourão Filho, marcharam em direção ao Rio de Janeiro com o objetivo de depor o presidente, recebendo apoio de unidades militares de outras regiões. Diante da gravidade da situação, Goulart deixou o país, evitando um confronto de maiores proporções e a perda de vidas.
Com apoio de setores conservadores da sociedade, de partidos de direita e da Igreja Católica — que participou da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” — os militares assumiram o comando do governo e de posições estratégicas do Estado. Instalou-se, então, um regime autoritário que, inicialmente, prometia breve retorno à normalidade institucional. Ao mesmo tempo, grupos de esquerda, já em conflito político e ideológico com setores conservadores havia décadas, intensificaram sua atuação. A radicalização crescente levou o país a um ciclo de repressão, resistência, exílio, cassações e violência política, deixando marcas profundas na democracia brasileira.
O regime militar e seus opositores viveram uma longa disputa que só se encerrou em 1985, quando o poder voltou às mãos dos civis. Iniciava-se a chamada Nova República, simbolizada pela eleição de Tancredo Neves. Sua morte, porém, antes da posse, representou já naquele momento um sinal das dificuldades que continuariam a marcar a vida institucional do país.
A anistia de 1979 permitiu o retorno dos exilados, a reintegração de servidores civis e militares punidos durante o regime e teve como propósito contribuir para a reconciliação nacional. Com a redemocratização, antigos adversários voltaram à vida pública, partidos extintos foram recriados e novas legendas surgiram, ampliando a pluralidade política brasileira. Esse processo foi essencial para restaurar a convivência democrática, ainda que não tenha eliminado as divergências e ressentimentos acumulados ao longo do tempo.
Nas décadas seguintes, o Brasil mudou profundamente. A esquerda chegou ao poder com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, e voltou a vencer com sua reeleição e, depois, com as eleições de Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, episódios como os impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff ampliaram tensões institucionais e alimentaram a polarização entre campos políticos distintos. Em muitos momentos, o debate público deixou de se concentrar na busca de soluções e passou a girar em torno da desqualificação do adversário.
Na verdade, as dificuldades políticas acompanham a República desde sua origem, em 1889. O marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente, renunciou em meio a forte crise com a Marinha. Outros governos também enfrentaram instabilidade, rupturas e conflitos, inclusive o ciclo iniciado em 1930 com Getúlio Vargas, que permaneceu no poder até 1945. A história republicana brasileira mostra que a construção institucional do país sempre foi marcada por avanços, impasses e recomeços.
Hoje, o Brasil continua enfrentando problemas políticos, sociais e estruturais que exigem responsabilidade, maturidade e espírito público. A superação dessas dificuldades depende da capacidade de reconhecer diferenças sem transformar adversários em inimigos. Nenhuma nação se fortalece quando o debate político é guiado pelo ódio, pela destruição moral do outro ou pela negação da legitimidade de quem pensa diferente.
Pacificar o país exige compromisso com a democracia, respeito às instituições, defesa da Constituição e disposição para o diálogo. Exige também que líderes e cidadãos coloquem os interesses nacionais acima das paixões partidárias e compreendam que alternância de poder, divergência de ideias e crítica política fazem parte da vida democrática. O voto deve ser orientado por propostas consistentes, pela competência dos candidatos e por sua capacidade de contribuir para a solução dos problemas nacionais — nunca pela promessa de combater ou destruir o adversário.
Se quisermos um país mais estável, justo e unido, será preciso aprender com os conflitos do passado sem reproduzi-los no presente. O Brasil precisa menos de confrontação permanente e mais de equilíbrio, grandeza e reconciliação nacional.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo).
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