A saída do União Brasil e do PP – hoje constituídos em federação – é um grande desfalque na base congressual do governo do presidente Lula. Os dois partidos, que totalizam 109 parlamentares, já emitiram orientação para todos os seus membros que ocupam ministérios e outros cargos de governo devolvam os postos para formar dentro da nova orientação. Os que pretenderem ficar correrão riscos de desfiliação e outras sanções previstas nos estatutos. A semana entrante será decisiva porque os convocados à debandada terão de deixar o governo e, do seu lado, o presidente da República, se esforça para que se mantenham.
A mudança de forças na formação das bancadas no Congresso faz andar projetos que o governo até agora conseguiu retardar. O mais recente acordo deu-se entre os deputados de oposição e o presidente da Câmara, Hugo Motta, que deverá pautar na próxima semana a discussão e votação do projeto que coloca fim ao foro privilegiado. Denuncia-se que o foro, criado sob o escopo de proteger parlamentares e outras autoridades, têm servido para que estes sofram pressão e chantagem vinda de ministros do Supremo Tribunal Federal através de investigações, inquéritos e ameaças. Ao longo dos anos, mais de uma centena de deputados e senadores foram investigados, processados e até condenados e até encarcerados por conta do foro especial, que os coloca sob o jugo dos membros da suprema corte.
Também está em fase de acordo entre os deputados oposicionistas a discussão e votação do projeto de anistia aos envolvidos nos distúrbios de 8 de janeiro de 2023. O governo pressiona contra o benefício e a oposição – hoje constituída de 292 deputados – trabalha pela sua aprovação. O presidente da Câmara está sob pressão. Existem vários segmentos, Uns incluem Bolsonaro e membros de sua equipe processados e outros reportam-se aos manifestantes presos por depredar os palácios ou estarem no acampamento à frente do quartel do Exército.
O movimento no Congresso ainda envolve outros projetos importantes, como a PEC da Segurança Pública, que também tem tramitado a passos de tartaruga por falta de consenso entre os governos federal e estaduais. Deputados e senadores trabalham na blindagem do Parlamento que, na prática, se aprovada, deverá impedir que o Judiciário invalide matérias aprovadas nas casas legislativas.
O momento difícil que vivemos hoje é resultante da falta de consenso das últimas três a quatro décadas. A Nova República – que vigorou a partir de 1985 – foi uma colcha de retalhos. Seus líderes tiveram a prioridade de não se parecerem em nada com os militares de 1964, mas pouco fizeram para encontrar solução aos problemas nacionais. Tanto que não demorou surgir o chamado governo de coalizão, que cedeu benesses aos parlamentares para conseguir aprovar seus projetos. Vieram a reeleição para cargos executivos, as emendas parlamentares e outros direitos e benefícios que levaram ao atual estado onde o Legislativo nem precisa do Executivo para oferecer emendas parlamentares aos seus membros. As divergências entre as correntes ideológicas mergulharam a política nacional no clima de polarização que transformou adversários políticos em inimigos figadais e atualmente deságua numa série de atitudes criminosas pois são facilmente capituladas no Código Penal.
As divergências dos Três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) que hoje rivalizam governantes, congressistas e magistrados – são resultados da falta de racionalidade na execução e formulação política ocorrida a partir da redemocratização posterior ao regime militar vigido de 1964 a 1985. Acumulou-se muitos entulhos decorrentes dos interesses
de pessoas ou grupos políticos influentes e a política nacional tornou-se cada dia mais complicada.
Uma das pendências que hoje temos em andamento no Congresso Nacional é o fim da reeleição de presidente, governador e prefeito e o estabelecimento de mandato único de cinco anos para todos os eleitos, com a realização das eleições gerais num só dia. Isso já foi tentado em 1980, mas o interesse corporativo dos caciques políticos não permitiu que o sistema vingasse. O mesmo aconteceu com uma série de inovações que, com o passar dos anos, ficaram diante dos interesses dos grupos que, em cada época, dominaram a política nacional.
Esperamos que, nesse momento complicado da política nacional – que sofre até interferências internacionais – as lideranças sejam suficientemente maduras para tirar o País do terreno pantanoso e recolocá-lo na rota do desenvolvimento, tão sonhada e poucas vezes vislumbrada…
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo).
Você também pode gostar
Ávine Vinny lança “Novinha de Academia” em parceria com MC Nito, com clipe gravado no Rio
Lauana Prado lança versão deluxe do “Raiz Belo Horizonte”com faixas inéditas nesta quinta-feira (29)
Quatro em cada 10 médicos egressos de escolas privadas são mal formados