A segurança pública exige preparo, equilíbrio emocional, atenção constante e resposta rápida. Em uma fração de segundo, um policial militar pode ter de decidir entre defender a própria vida, proteger a de terceiros e conter uma situação de extremo risco. Por isso, é inadmissível que profissionais que atuam sob tanta pressão sejam submetidos a jornadas exaustivas, baixa valorização e falta de reconhecimento por parte do Estado empregador.
No caso da Polícia Militar de São Paulo, a insatisfação cresce diante da ausência de aumento salarial que era prometido e, mais do que isso, necessário. Enquanto o custo de vida sobe e a responsabilidade da função só aumenta, os policiais seguem sem a devida recomposição salarial, convivendo ainda com a redução de índices e direitos que impactam diretamente sua remuneração e sua dignidade profissional.
A consequência é grave. Sem valorização financeira suficiente, muitos policiais acabam recorrendo ao trabalho remunerado em seus horários de folga para complementar a renda. O próprio Estado, em vez de garantir uma remuneração justa dentro da atividade principal, passa a estruturar mecanismos para que esse profissional continue trabalhando mesmo quando deveria descansar. Na prática, isso institucionaliza uma lógica perversa: o policial não tem folga real. Ele apenas troca um turno oficial por outro, igualmente desgastante, para conseguir manter sua sobrevivência e a de sua família.
Esse cenário traz impactos profundos à saúde física e mental do policial militar. A falta de descanso compromete o sono, aumenta o desgaste do corpo, favorece o surgimento de doenças cardiovasculares, dores crônicas, fadiga extrema e queda da imunidade. No campo emocional, os efeitos podem ser ainda mais severos: ansiedade, irritabilidade, esgotamento psicológico, depressão, síndrome de burnout e perda da capacidade de concentração. E esse ponto merece máxima atenção. A profissão policial exige lucidez permanente. Um PM exausto, sobrecarregado e sem tempo adequado de recuperação trabalha com reflexos reduzidos, raciocínio prejudicado e menor controle emocional. Isso não afeta apenas o próprio agente, mas também toda a sociedade. Um profissional que atua armado, em ambiente de tensão e sob risco constante, precisa estar mentalmente apto para tomar decisões rápidas e corretas. Quando o Estado falha em garantir salário digno e descanso adequado, ele não apenas prejudica o policial — ele compromete a própria qualidade da segurança pública entregue à população.
Não se pode normalizar que homens e mulheres responsáveis por proteger vidas precisem sacrificar a própria saúde para complementar renda. Não se pode tratar como aceitável que a solução para a defasagem salarial seja trabalhar nas horas que deveriam ser de descanso, convívio familiar e recuperação física e emocional. Isso não é valorização. Isso é sobrecarga institucionalizada.
Valorizar o policial militar vai muito além de discursos. Significa pagar de forma justa, respeitar direitos, garantir condições dignas de trabalho e preservar a saúde daqueles que vivem diariamente sob tensão extrema. Um profissional exausto não é apenas um trabalhador adoecido — é também o retrato de um Estado que deixou de cuidar de quem deveria proteger a sociedade.
Se o governo não concede o aumento necessário, reduz direitos e empurra o policial para jornadas sem descanso, o resultado é previsível: adoecimento, desmotivação e maior risco para todos. Defender a valorização da Polícia Militar não é apenas uma pauta corporativa. É uma necessidade humana, institucional e social.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo).
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