{"id":24909,"date":"2025-07-16T21:44:30","date_gmt":"2025-07-17T00:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/?p=24909"},"modified":"2025-07-16T21:45:34","modified_gmt":"2025-07-17T00:45:34","slug":"surfar-depois-dos-40-uma-nova-onda-de-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/surfar-depois-dos-40-uma-nova-onda-de-consciencia\/","title":{"rendered":"Surfar depois dos 40: Uma nova onda de consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>Surfar aos 40 anos \u00e9 uma experi\u00eancia diferente. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 sobre performance, vit\u00f3rias ou t\u00edtulos \u2014 \u00e9 sobre significado de vida.<br>Depois de tr\u00eas d\u00e9cadas remando atr\u00e1s de ondas ao redor do mundo, minha rela\u00e7\u00e3o com o surfe foi se transformando naturalmente. Come\u00e7ou como uma brincadeira de crian\u00e7a, virou profiss\u00e3o, paix\u00e3o e, mais recentemente, cura. No final de 2023, fui diagnosticado com c\u00e2ncer. Passei o ano de 2024 em tratamento. Em meio aos desafios f\u00edsicos e emocionais, o surfe foi meu ponto de equil\u00edbrio. O mar se tornou meu templo.<br>Mesmo ainda em remiss\u00e3o, tive for\u00e7as para competir e vencer, em abril, a etapa de Saquarema, do circuito sul-americano da WSL (REMA WSL Saquarema Surf Festival). Uma vit\u00f3ria que n\u00e3o foi apenas esportiva \u2014 foi existencial. Cada onda agora tem um outro valor. A energia que troco com o oceano carrega mais do que t\u00e9cnica: carrega gratid\u00e3o.<br>Aos 40, a gente entende o corpo com mais profundidade. As manobras mais explosivas exigem cuidados maiores, trocas r\u00e1pidas de dire\u00e7\u00e3o. Tudo isso pede respeito aos limites. Mas, ao mesmo tempo, a mente est\u00e1 mais afiada, o estilo mais refinado e a leitura do mar mais precisa. A t\u00e9cnica evolui com o tempo, e isso \u00e9 libertador.<br>Minha prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica hoje \u00e9 mais equilibrada: yoga, treino funcional, muscula\u00e7\u00e3o leve, respira\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o. Valorizo o descanso e a alimenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o busco mais o corpo de um atleta no auge. Busco sa\u00fade e longevidade. Quero continuar surfando n\u00e3o s\u00f3 bem, quero continuar surfando sempre.<br>Meu surfe mudou muito. Evoluiu junto com a minha percep\u00e7\u00e3o de mundo. As viagens, as competi\u00e7\u00f5es, os aprendizados com os mestres \u2014 tudo isso foi moldando meu estilo. Sempre busquei unir o cl\u00e1ssico com o progressivo, mesmo quando o circuito internacional tentou empurrar o Longboard para uma dire\u00e7\u00e3o \u00fanica e engessada.<br>Acredito que a verdadeira beleza do Longboard est\u00e1 no equil\u00edbrio. No toque leve dos p\u00e9s no bico da prancha e, ao mesmo tempo, na pot\u00eancia da manobra bem encaixada. Tenho orgulho de ter mantido minha ess\u00eancia mesmo me adaptando aos novos crit\u00e9rios, o que me levou a conquistar meu terceiro t\u00edtulo mundial em 2016.<br>Do Rio para o mundo: uma vida no mar<br>Minha primeira viagem de surfe foi aos 10 anos, em 1992, representando o Rio de Janeiro no circuito brasileiro amador. Lembro com carinho das viagens no \u00f4nibus da FESERJ (Federa\u00e7\u00e3o de Surfe do Estado do Rio de Janeiro) com a equipe, parando em lugares como S\u00e3o Paulo, Florian\u00f3polis e Cear\u00e1. Era o come\u00e7o de uma jornada que se tornaria minha vida inteira.<br>Em 2004, em Puerto Escondido, no M\u00e9xico, vivi uma das experi\u00eancias mais marcantes da minha carreira: vencer o evento mundial \u201cOxbow Soul and Stulyle\u201d. Me vanglorio n\u00e3o s\u00f3 pelo n\u00edvel das ondas \u2014 pesadas, tubulares, desafiadoras -, mas tamb\u00e9m pelo n\u00edvel dos competidores: eram 16 campe\u00f5es mundiais da hist\u00f3ria do Longboard reunidos. Terminei campe\u00e3o do evento em uma final contra o Joel Tudor, o que consolidou minha trajet\u00f3ria internacional e marcou o in\u00edcio de uma nova fase na minha carreira. Esse campeonato me fez entender at\u00e9 onde o surfe poderia me levar.<br>J\u00e1 enfrentei situa\u00e7\u00f5es perigosas tamb\u00e9m. Em Sunset Beach, no Hava\u00ed, por volta de 1999, fiquei duas ondas submerso em um mar de 15 p\u00e9s. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o existiam os recursos de seguran\u00e7a de hoje, como coletes infl\u00e1veis ou jet ski de resgate. Foi um susto grande, mas me ensinou muito sobre respeito ao oceano. E surfei tamb\u00e9m em Jaws, a onda de Peahi\/Hava\u00ed, com ondas de 35 p\u00e9s, na remada. Ali, \u00e9 outro n\u00edvel de poder da natureza. O mar se imp\u00f5e. \u00c9 preciso preparo f\u00edsico, mental, espiritual \u2014 e muita humildade. S\u00e3o momentos que marcam para sempre. Felizmente, hoje temos tecnologia e prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica que nos ajudam a minimizar os riscos nessas condi\u00e7\u00f5es extremas.<br>E por falar em tecnologia, hoje, desenho minhas pr\u00f3prias pranchas. Busco o equil\u00edbrio entre tradi\u00e7\u00e3o e tecnologia. As pranchas modernas oferecem leveza, precis\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u2014 mas carrego comigo o respeito pelas pranchas cl\u00e1ssicas, com suas linhas puras e sua alma.<br>Admiro os shapes californianos, mas adapto para o meu estilo, para as ondas do Brasil e para o meu corpo. Acredito que cada surfista precisa encontrar a prancha que converse com sua ess\u00eancia \u2014 e isso, para mim, \u00e9 parte fundamental do surfe como arte.<br>O surfe como escola de vida<br>Se eu pudesse voltar no tempo, n\u00e3o mudaria nada. Cada erro me ensinou. Cada vit\u00f3ria me mostrou aonde posso chegar. O surfe me deu tudo \u2014 e tudo o que ele tirou, foi para me ensinar a ser algu\u00e9m melhor.<br>Hoje, o surfe representa liberdade, equil\u00edbrio, espiritualidade e fam\u00edlia. \u00c9 atrav\u00e9s dele que me conecto com minha filha Coral, que come\u00e7a agora a viver sua rela\u00e7\u00e3o com o mar. Meu sonho \u00e9 envelhecer surfando ao lado dela, sem pressa, sem press\u00e3o \u2014 apenas sentindo a energia da onda.<br>Ainda sonho em surfar em lugares que nunca fui, como Cloudbreak &#8211; um dos 10 melhores picos de surfe, na ilha de Tavarua, em Fiji -, Indon\u00e9sia (\u00c1sia) e Teahupo\u2019o (Polin\u00e9sia Francesa). Mas, acima de qualquer destino, o que importa \u00e9 o que a onda traz: presen\u00e7a.<br>Aos jovens que est\u00e3o come\u00e7ando agora, deixo um conselho simples: Mantenham sua ess\u00eancia. Respeitem o mar. Estudem as pranchas. Entendam seus corpos. Aprendam com os mais velhos, mas sigam a pr\u00f3pria verdade.<br>O surfe \u00e9 muito mais do que competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 um estilo de vida. \u00c9 uma linguagem silenciosa com a natureza.<br>Enquanto eu tiver sa\u00fade e vontade, estarei no mar. Porque o surfe \u00e9 isso: um ciclo sem fim. Um retorno constante a quem realmente somos.<br>Aloha!<br>Phil Rajzman \u00e9 tricampe\u00e3o mundial de longboard (em 2007 e 2016, campe\u00e3o mundial pela World Surf League; e 2004 campe\u00e3o mundial pela Oxbow Pro), bicampe\u00e3o Pan-Americano (2007 e 2009) e atleta da elite mundial por 25 temporadas (at\u00e9 2022). Carioca, 43 anos, foi o primeiro brasileiro a entrar para a hist\u00f3ria como Campe\u00e3o Mundial de Surfe, mas no pranch\u00e3o. Tem um canal no Youtube (@PhilGood21) e o Instagram e o Facebook @philrajzman.<\/p>\n\n\n\n<p>*Por Phil Rajzman<\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00e9dito: @buziossurfphotography<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Surfar aos 40 anos \u00e9 uma experi\u00eancia diferente. 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