{"id":24341,"date":"2025-06-09T17:53:27","date_gmt":"2025-06-09T20:53:27","guid":{"rendered":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/?p=24341"},"modified":"2025-06-09T17:53:27","modified_gmt":"2025-06-09T20:53:27","slug":"sentidos-em-crise-o-que-e-a-verdade-diante-da-inteligencia-artificial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/sentidos-em-crise-o-que-e-a-verdade-diante-da-inteligencia-artificial\/","title":{"rendered":"Sentidos em crise: o que \u00e9 a verdade diante da intelig\u00eancia artificial?"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando o real e o falso se confundem, manter a confian\u00e7a em nossas percep\u00e7\u00f5es \u00e9 um desafio urgente<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que \u00e9 a verdade?&#8221; (Jo\u00e3o 18:38)<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta feita por P\u00f4ncio Pilatos a Jesus atravessa os s\u00e9culos. Hoje, ela retorna com for\u00e7a em meio \u00e0 enxurrada de conte\u00fados gerados por intelig\u00eancia artificial. Imagens hiper-realistas, vozes clonadas e deepfakes colocam em xeque aquilo que nossos sentidos sempre tomaram como certo. O que vemos \u00e9 realmente confi\u00e1vel?<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio deste ano, o Google lan\u00e7ou o Veo 3, sistema que gera v\u00eddeos t\u00e3o realistas que se tornam quase indistingu\u00edveis da realidade. Essa tecnologia n\u00e3o somente \u00e9 um simulacro de imagens e sons, mas redefine o que entendemos como verdade visual. O irreal produz poder de convencimento por seus pr\u00f3prios meios. Seria isso um prel\u00fadio da quebra da confian\u00e7a nas imagens digitais?<\/p>\n\n\n\n<p>Se antes t\u00ednhamos certezas, agora o que vemos e ouvimos pode ser inteiramente fabricado, e mais, com uma apar\u00eancia quase inquestion\u00e1vel. N\u00e3o se trata apenas de separar verdade da mentira, mas tamb\u00e9m de reconhecer os efeitos de verdade. Nesse contexto, o metaverso, como espa\u00e7o onde tudo pode ser fabricado, \u00e9 ao mesmo tempo um risco e um sintoma. Ele n\u00e3o apaga a verdade, mas exp\u00f5e o seu esvaziamento de sentido. O metaverso revela um mundo em que a verdade se dissolve entre apar\u00eancias bem-feitas, entre identidades modeladas e experi\u00eancias hiperest\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Imersos no emaranhado da p\u00f3s-verdade, em que as emo\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as t\u00eam mais peso que os fatos objetivos, como analisa o semioticista Eric Landowski, a experi\u00eancia da verdade mudou de natureza. S\u00e3o metamorfoses: ela \u00e9 hoje uma experi\u00eancia sens\u00edvel, mais do que um dado fixo. Vivemos um tempo em que a verdade &#8220;se acredita por cont\u00e1gio&#8221;. Assim, desfazer a ideia de verdade pode parecer sedutor, especialmente em tempos em que toda afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 inst\u00e1vel e toda imagem pode ser forjada. Mas talvez o mais interessante n\u00e3o seja abandonar a ideia de verdade, e sim reconfigur\u00e1-la: n\u00e3o como posse, mas como processo; n\u00e3o como certeza, mas como abertura; n\u00e3o como um dado, mas como ato relacional e \u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o digital empobrece as rela\u00e7\u00f5es humanas porque elimina aquilo que h\u00e1 de mais fundamental no encontro com o outro: o toque, o olhar, o sil\u00eancio entre as palavras. No lugar disso, temos vozes sem presen\u00e7a e rostos filtrados, em uma esp\u00e9cie de ilus\u00e3o interativa que simula proximidade, mas refor\u00e7a o isolamento. Falta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o digital a intensidade que s\u00f3 a presen\u00e7a \u00e9 capaz de proporcionar. O excesso de barulho impede uma escuta contratual com o outro. Eleva-se o efeito da solid\u00e3o, numa engrenagem central desse mundo onde o outro s\u00f3 existe enquanto reflexo do meu desejo de ser visto. Todos falam, ningu\u00e9m escuta; todos se produzem como marca, imersos na l\u00f3gica da autopromo\u00e7\u00e3o e do marketing, falta a presen\u00e7a. A internet n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o de v\u00ednculo, mas de performance. A tecnologia redefine o que chamamos de humano, e talvez o que estejamos perdendo n\u00e3o seja a comunica\u00e7\u00e3o, mas a pr\u00f3pria experi\u00eancia de estar com o outro de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o. O pensar com o cora\u00e7\u00e3o avalia e sente espa\u00e7os antes de operar conceitos. A tonalidade afetiva da confian\u00e7a no alcance do momento est\u00e1 na emo\u00e7\u00e3o, no come\u00e7o do pensamento. A IA \u00e9 ap\u00e1tica. Ela calcula. Ela n\u00e3o tem acesso a horizontes. Ela processa dados constantes, previs\u00edveis e control\u00e1veis ao toque na tela. Ser\u00e1 que n\u00e3o estamos querendo fugir de nossas realidades, para adentrarmos a um mundo imagin\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, como criar uma agenda positiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade? Talvez o desafio esteja menos em resgatar uma ideia fixa de verdade e mais em propor pr\u00e1ticas sens\u00edveis que reabilitem a confian\u00e7a simb\u00f3lica. Uma agenda positiva exige um novo compromisso com o acontecimento da verdade como encontro. A era da curadoria nos exige saber o que realmente importa. Orquestrar a informa\u00e7\u00e3o, filtrando ru\u00eddos e concentrando nossa aten\u00e7\u00e3o no essencial, \u00e9 um pensamento inaugural para a sobreviv\u00eancia da confian\u00e7a na comunica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>A IA n\u00e3o atinge n\u00edvel profundo e conceitual do saber. Ela n\u00e3o conceitua os resultados que calcula. O c\u00e1lculo \u00e9 diferente do pensamento porque n\u00e3o forma conceitos e n\u00e3o avan\u00e7a de uma conclus\u00e3o para outra. A IA aprende com o passado. O futuro calculado n\u00e3o \u00e9 verdadeiro no sentido completo da palavra. Ela carece da negatividade da ruptura, que deixa surgir o novo no sentido enf\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a esse cen\u00e1rio de crise da verdade, o fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra \u201cA Salva\u00e7\u00e3o do Belo\u201d, nos alerta para um fen\u00f4meno atual: o belo, na contemporaneidade, perdeu sua profundidade e foi reduzido ao que \u00e9 simplesmente agrad\u00e1vel e pr\u00e1tico: a curtida, o like. Mas, para Han, o verdadeiro belo \u00e9 aquilo que provoca, inquieta, que tira da zona de conforto aquilo que toca o cerne da emotividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse olhar nos convida a valorizar a alteridade, a presen\u00e7a real do outro, que reconhecemos em sua diferen\u00e7a e legitimidade como sujeito no mundo. \u00c9 na alteridade que talvez resida uma das sa\u00eddas para reabilitar o cred\u00edvel na era da p\u00f3s-verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento humano \u00e9 mais que c\u00e1lculo e resolu\u00e7\u00e3o de problemas, \u00e9 uma ponte entre a subjetividade e a objetividade, o abstrato e o concreto, a sensibilidade e o racioc\u00ednio, o imagin\u00e1vel e o sens\u00edvel, a dor e a beleza da condi\u00e7\u00e3o humana. A quest\u00e3o da presen\u00e7a \u00e9 que o pensamento humano n\u00e3o est\u00e1 apenas no mundo, mas se envolve com ele de forma plena e sens\u00edvel, enquanto a m\u00e1quina apenas calcula sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Num tempo em que tudo est\u00e1 dispon\u00edvel e alcan\u00e7\u00e1vel, nenhuma aten\u00e7\u00e3o profunda \u00e9 formada. O foco se dispersa. O olhar para o belo n\u00e3o se det\u00e9m, ele vagueia como um ca\u00e7ador. Somente as coisas tornam o mundo vis\u00edvel. Elas possuem visibilidade, enquanto o intang\u00edvel as apaga.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sugeria o educador An\u00edsio Teixeira em sua defesa da educa\u00e7\u00e3o integral, pode-se dizer que a intelig\u00eancia verdadeira s\u00f3 existe quando pensamento, a\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o caminham juntos, algo que uma m\u00e1quina, por mais sofisticada que seja, n\u00e3o alcan\u00e7a, n\u00e3o vive. Apenas simula. A tecnologia n\u00e3o \u00e9 ind\u00edcio de progresso moral da humanidade. \u00c9tica n\u00e3o \u00e9 algo que uma m\u00e1quina pode simular \u00e9 um compromisso humano, que exige acautelar-se constantemente diante dos desafios e riscos \u00e9ticos que as novas tecnologias apresentam.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa din\u00e2mica do cont\u00e1gio simb\u00f3lico amplifica a circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas, dos simulacros pol\u00edticos, das realidades fabricadas. A confian\u00e7a est\u00e1 em crise porque os sentidos: vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o garantias s\u00f3lidas de verdade. \u00c9 urgente reencantar os sentidos para compreender as complexidades da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, precisa-se buscar novos crit\u00e9rios para a verdade, que ultrapassem o que \u00e9 imediatamente percebido. Para al\u00e9m de uma checagem rigorosa, responsabilidade figurativa \u00e9 essencial para redefinir pactos de confian\u00e7a. A confian\u00e7a foi capturada pelos afetos e os sentidos est\u00e3o em crise. Espa\u00e7o privilegiado para a d\u00favida como veridic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E por fim\u2026Diante do desafio contempor\u00e2neo imposto pela tecnologia e pela p\u00f3s-verdade, retoma-se a pergunta de Pilatos: O que \u00e9 a verdade? \u00c9 prov\u00e1vel que a verdade n\u00e3o seja uma resposta fixa, mas sim um convite a exercitar nossa sensibilidade cr\u00edtica para navegar entre o real e o irreal.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta de Pilatos precisa ser atualizada: O que ainda pode fazer sentido como verdade? A resposta, certamente, est\u00e1 em reeducar nossa sensibilidade, reconhecer os limites da percep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m assumir a responsabilidade de reconstruir novos pactos de confian\u00e7a simb\u00f3lica. Afinal, a sociedade n\u00e3o se transforma por novas m\u00e1quinas, mas por novas formas de comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mauri Oliveira \u00e9 jornalista e radialista. Mestrando em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP. Pesquisa as pot\u00eancias da linguagem radiojornal\u00edstica, pr\u00e1ticas de escuta e suas rela\u00e7\u00f5es com a sustentabilidade no Alto Sert\u00e3o da Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foto: CARAVAGGIO. Ecce Homo. [S.l.], c. 1605. Pintura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o real e o falso se confundem, manter a confian\u00e7a em nossas percep\u00e7\u00f5es \u00e9&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24342,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"thumbnail":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51-237x300.jpeg",237,300,true],"medium_large":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"large":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"1536x1536":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"2048x2048":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"newsever-slider-full":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"newsever-featured":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51.jpeg",600,759,false],"newsever-medium":["https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Image-2025-06-09-at-17.23.51-600x475.jpeg",600,475,true]},"author_info":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o","author_link":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/author\/g5poa\/"},"category_info":"<a href=\"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/category\/cidades\/\" rel=\"category tag\">Cidades<\/a>","tag_info":"Cidades","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24341"}],"collection":[{"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24341"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24343,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24341\/revisions\/24343"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24342"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novosaopaulo.com.br\/n1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}