Uma viagem no Túnel do Tempo sob os trilhos da Estação de Poá

Miguel Comitre*

Numa dessas últimas manhãs de despedida do inverno, como a deixar para trás a longa estiagem, com saudades do frio, a neblina ainda se esfumaçando e, no horizonte chegando os sinais floridos da primavera, aportamos, na caminhada empreendida, para a travessia da Praça dos Expedicionários rumo à Praça João Pessoa.
A passos lentos, descontraídos, destoando dos demais transeuntes apressados e, diria, alheios, desatentos, desinteressados, mochilas aos ombros, celulares ativados, crianças ao colo, ciclistas inadvertidos, vendedores ambulantes posicionados, todos num vai e vem interminável, somos surpreendidos, ao ingressar no Túnel Antônio Mantarano, pelo desfilar nas suas paredes emolduradas, sob os trilhos ferroviários, como num “túnel do tempo” com alguns registros fotográficos de importantes marcos construtores do passado de nossa cidade-jóia.
Nas paredes os retratos da antiga sede do Ginásio Estadual de Poá, instalado no ano de 1950 (fui aluno da primeira turma) berço e formação de várias gerações de jovens idealistas. As emblemáticas fotos da casa do então chefe e da antiga estação ferroviária e o pequeno grupo de passageiros à espera da Maria Fumaça.
Dois passos adiante a estação superlotada, apinhada, de peregrinos em razão da fé cristã protagonizada pelos milagres do saudoso beato Padre Eustáquio – o Vigário de Poá – que deu projeção nacional ao desconhecido distrito, nos idos dos anos trinta e quarenta.
Foi o período em que também começou a florescer o Orfanato Dom Bosco que, viria a transformar-se no Reino da Garotada, a importante obra assistencial, reconhecida mundialmente, do finado Padre Simon Switzar.
O Convento das Irmãs Carmelitas ao lado da matriz, desativado por ocasião da criação do município, foi a sede inicial da Prefeitura e, por volta de 1957 deu lugar à instalação do Colégio e Escola Normal Municipal de Poá – pioneiro na municipalização do ensino de primeiro e segundo graus – mantido com recursos próprios do município por mais de trinta anos, sem sacrificar as finanças e, até hoje, apesar de sua criticável extinção, é referencia expressiva em assuntos educacionais.
Passos adiante, deparamos com o simbólico retrato do que teria sido um dia a Casa Maternal e Pronto Socorro nos altos da antiga Vila Júlia, imorredouro sonho teimoso dos antigos e novos poaenses. E o que dizer da foto estampando o Relógio, sob a eterna vigilância do soldado expedicionário, que marcou o tempo de gerações e, hoje, inerte e silencioso, parece reclamar do abandono, injusto, a que está relegado.
A igreja matriz, devotada à padroeira Nossa Senhora de Lourdes e, a Capela de Santo Antonio testemunhas da religiosidade e da fé cristã de nosso povo. A Fonte Áurea que pela qualidade de sua água alimentou o sonho tornado realidade em 1970 de nossa estância hidromineral.
O tradicional casarão, azul por muitos anos, hoje descolorido, tem seu lugar de destaque na galeria, por ter abrigado a Prefeitura, que assim o fez, ao desocupar a antiga sede, onde hoje está alojada a Policia Militar, na Praça Ruy Barbosa, para a memorável instalação aos 12 de agosto de 1967 da recém criada Comarca de Poá.
A memória fotográfica segue. A parada é obrigatória ante as cenas urbanas da cidade que se desenvolveu em torno da estação ferroviária, despontando o restaurante quiosque, o antigo bar líder, a primeira bomba de gasolina, o monumento “espeto”, o cine colonial, marcos simbólicos do passado, entre outros tantos ausentes na galeria, que muito contribuíram para a construção de nossa história.
Pelas gratas emoções revividas nesta viagem no túnel do tempo, sempre haverá o que contar e, para o memorial do amanhã, com certeza, restarão os bons ou maus retratos da atualidade…

*Advogado, Professor, Presidente da OAB/Poá (1980/1982), Vereador (1960/1964 e 1965/1968), Presidente da Câmara Municipal (1964) e Assessor Jurídico (1976/1982 e 2001/2008), Prefeito Municipal de Poá (1969/1973 e 1983/1988), Secretário de Assuntos Jurídicos (1997/2000) e, Chefe de Gabinete (2014/2016).


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